Entrevista: Móveis Coloniais de Acaju

Fonte: Rock Press | Autor: Junior Abreu | Data: 18/10/2006

Quatro mil CDs vendidos de forma independente, um festival de intercâmbio musical e uma apresentação ao vivo de dar inveja a muita companhia de arte contemporânea. Apresentamos o Móveis Coloniais de Acaju contando um pouco de sua história, de sucesso e até de política!


Confira o bate papo mais que descontraído antes de se apresentarem no Rio Cena Contemporânea que rolou no Rio de Janeiro em setembro, da banda brasiliense Móveis Coloniais de Acaju e seus dez integrantes - André Gonzales (voz), BC (guitarra), Beto Mejía (flauta transversal), Eduardo Borém (gaita cromática, teclados e escaleta), Esdras Nogueira (sax barítono), Fabio Pedroza (baixo), Leonardo Bursztyn (guitarra), Paulo Rogério (sax tenor), Renato Rojas (bateria) e Xande Bursztyn (trombone).


O Móveis tem uma formação nada convencional, são dez integrantes. Musicalmente é obvia a necessidade de todos na banda, mas quanto às personalidades, os atritos que sempre rolam convivendo com dez caras extremamente diferentes, como funciona?

Renato - Num nível saudável sempre rola stress, mas é sempre uma discussão produtiva, no final das contas as coisas sempre se resolvem.
Fábio - O grande lance é que são muitos anos juntos, desses dez, oito estão desde 2000. E depois de tantas mudanças, mexe aqui e mexe acolá, acaba que sabemos o que queremos para a banda, sabemos qual é o caminho e mesmo que surja uma discussão, no final sempre chegamos num acordo, porque todos pensam no bem da banda e não no próprio umbigo.
Paulo - E rola um respeito às individualidades, ao jeito de cada um, aprendemos isso com o tempo.

Há uma definição para o som da banda ou vocês não se definem?

Fábio - Hoje em dia com toda a crise atual da música, existe uma tendência das pessoas se classificarem como inclassificáveis. Então acho que seja por aí, porque quando você escuta uma banda, algumas vezes logo sabe as influências da banda. O grande lance são as pessoas que vão ao show do Móveis, que têm o CD e classificam como querem, com a experiência do contato.
Esdras - Às vezes comparam com coisas que nós nunca imaginamos, daí a gente brinca com tudo isso, dizendo que o Móveis é uma "feijoada búlgara", o que também serve de resposta para as entrevistas de dois minutos (risos).

Quanto às influências, há uma pré-determinação para estilos ou não existem regras?

Paulo - Eu por exemplo... entrei depois na banda e acho que houve uma permuta de estilos, eu passei ouvir muita coisa que não conhecia e os outros passaram a ouvir coisas que mostrei.
(Fábio pergunta ao Paulo qual o estilo que ele trouxe para os outros integrantes da banda.)
Paulo - Eu gosto muito de jazz, um jazz mais pop
Esdras - Que jazz, nada, fala a verdade (risos).
Paulo - Eu gosto de música brega (toda a mesa começa a rir, muito)
Esdras - Hoje o brega tá chique.
Fábio - Nós temos duas formas de influências: a do cara que traz a letra da música e já tem uma noção do que pode ser a música toda, uma coisa direta, optada. E tem a influência de cada um em separado, a vivência musical de cada um.

Como pintou a produção de Rafael Ramos?

Fábio - O Rafael pintou em 2000, num festival lá de Brasília, chamado Porão do Rock. Nessa época já tínhamos um EP, que estávamos divulgando e tal, até sair uma resenha na ShowBizz que ele leu. Mandamos material, começamos a trocar alguns e-mails, mas foi engraçado porque ele falou uma série de coisas que na época soaram como uma afronta.
Esdras - Na verdade ele tinha uma visão de mercado, e nós não sabíamos como funcionava, éramos mais jovens, não tínhamos essa visão que temos hoje, mais profissional.
Fábio - Mas foi uma afronta no aspecto musical. Nós na verdade não tínhamos nem uma estrutura pré-definida e agora chegamos numa maturidade natural ao longo desses anos, hoje está incorporada em nosso trabalho. Passados quatro anos, começamos a procurar um produtor, o André Abujamra era o nome da vez, mas houve uma série de encontros e desencontros, o filho dele nasceu, ele foi fazer trilha sonora de filme no México etc... aí surgiu uma série de nomes, inclusive o Savalla, que produziu o Karnak.
Esdras - Um belo dia num boteco o Jimi London (primo do Xande e do Leo e vocalista da banda Matanza) falou: “O Rafael é que tinha que produzir o disco de vocês.” Aí ele ligou pro Rafael e pronto. Gravamos uma pré, mandamos e em treze dias de gravação estava tudo pronto.

Depois da febre Legião Urbana, Capital Inicial etc o Móveis é o que há em Brasília?

Xande - Em Brasília tem muita coisa boa, eu diria que é o que há também (risos)

Release escrito pelo André Abujamra. Isso dá uma força?

Fábio - O André sempre foi um das principais referências para a banda. Infelizmente não rolou dele produzir, mas o release feito por ele é uma grande honra.

A atual situação política do país influencia de algum modo o meio musical do Brasil?

Fábio - A política tá totalmente desacreditada. As nossas letras têm um tom crítico, mas não são letras políticas. Um país que elege Collor, Maluf... atrapalha qualquer meio.

O Idem é de 2005. Já há previsão para o CD novo?

Fábio - Já estamos compondo. Tem músicas que já estão entrando aos poucos no show e vamos aos poucos. As coisas vão acontecendo aos poucos. Fizemos o eixo Rio/ São Paulo, tocamos no Nordeste e foi bem foda. Eu diria que ano que vem começa a gravação do disco novo.

O projeto "Móveis Convida" é uma meio de intercâmbio? Falem a respeito.

Fábio - Esse foi o jeito que achamos pra quebrar a barreira do tal eixo Rio/São Paulo. Levamos bandas de fora pra Brasília e damos espaço para as bandas de lá também. Nós tentamos dar uma estrutura legal e tal. Eu considero um tremendo sucesso. Já fizemos com Rádio de Outono, Ludov etc.

Ofuji - O projeto é isso: intercâmbio e fortalecimento da cultura musical de Brasília, dialogando com todas as vertentes musicais.

Como é o processo de arranjo das canções, ensaio?

Paulo - Com o tempo ficou mais fácil de acontecer tudo. Nossa maturidade tem ajudado bastante, nós tentamos aproveitar todas as idéias.
André - Tem letras do Borém, tem letras do Leo, letras minha com o Leo. E não tem métrica, às vezes tem uma letra pronta e só falta a música, ou tem a música e falta letra, não tem regra.
Fábio - Depois que os dez topam que a música vá pro show, pronto, ela está pronta, mas saibam que ela já foi muito mexida até chegar no nível de ser executada ao vivo.

Móveis para 2007:

Paulo - Continuar móveis (risos)!
Fábio - Vamos continuar divulgando o Idem, que já teve 4 mil cópias vendidas, lançar o clipe da musica "Seria o Rolex?" na MTV e tentar tocar fora do país.

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